Loading...
O que é leitura orante? Na leitura orante, abrimos a Palavra e a deixamos nos conduzir ao amor de Deus. É um momento de acolhimento, no qual a Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, vem fazer sua morada em nós. A oração cristã é, acima de tudo, uma escuta. Não se trata de uma busca humana por transcendência, mas do acolhimento de uma presença, um relacionamento com um Deus que nos precede e nos sustenta.
Para a leitura orante, a Bíblia não pode ser um “jogo da sorte”, abrir a Bíblia à sorte. Abra o livro com reverência. Nunca escolha um trecho ao acaso. Obedeça ao lecionário litúrgico, que oferece o evangelho e as leituras do dia, ou decida ler um livro da Bíblia do início ao fim, em um ritmo de, por exemplo, cinco a dez versículos por dia.
Leia o texto não apenas uma vez, mas várias, e se puder, em voz alta. A leitura deve ser uma escuta (audire), e a escuta deve se tornar obediência (oboedire). Sem pressa, permita que a Palavra te habite. “No princípio era a Palavra, não o livro”. É Deus quem fala, e a leitura é apenas um meio para chegar à escuta. “Escuta, Israel!” é o grito de Deus que deve subir do texto até você.
Escutar significa abrir um espaço dentro de si para que a presença do Outro possa te habitar. É a experiência da inabitação, a presença divina em nós. Na leitura orante, somos visitados por Deus de uma forma tão plena que nos unimos a Ele por meio de Sua Palavra.
Fale com Deus, responda aos convites, apelos, inspirações e mensagens que Ele lhe dirigiu através da Palavra, compreendida com a ajuda do Espírito Santo. Você já percebeu que foi acolhido no âmbito trinitário, no inefável diálogo entre o Pai, o Filho e o Espírito? Não se prenda à reflexão, mas entre em diálogo e fale como um amigo fala com seu amigo (Deuteronômio 34,10).
A meditação tem como objetivo a oração. Fale com Deus com confiança e sem medo, longe de qualquer olhar sobre si mesmo, mas arrebatado pelo Seu rosto que emerge do texto, em Cristo Senhor. Liberte suas capacidades criativas de sensibilidade, de emoção, de evocação e coloque-as a serviço do Senhor.
É difícil dar muitas orientações sobre a oração profunda, pois aqui cada um vive seu próprio encontro com Deus. O que se pode dizer do fogo quando se está imerso nele? A oração-contemplação, no final da leitura orante, é como a sarça ardente que queima sem se extinguir, inflamando o coração do crente com amor pelo Senhor.
A leitura orante, como uma arte inefável da experiência da presença divina, quer conduzi-lo a este ponto, onde, como o Amado, você contempla e repete as palavras do Amante, em alegria, espanto e esquecimento de si mesmo. Não pense que este caminho é sempre fácil ou linear. Temor e amor apaixonado, gratidão e aridez espiritual, entusiasmo e cansaço, a palavra que flui e a palavra muda, seu silêncio e o silêncio de Deus: tudo isso se intercala em sua leitura orante, dia após dia.
O mais importante é ser fiel a este encontro. Mais cedo ou mais tarde, a Palavra abrirá um caminho em seu coração, superando os obstáculos que sempre estão presentes em uma jornada de fé e oração. Quem tem assiduidade com a Palavra sabe que Deus é fiel e não deixa de se fazer encontrar e de falar ao coração. A força da Palavra de Deus, quando vivenciada em sua própria vida, trará muitos benefícios.
Agradeça a Deus pela Palavra doada, por aqueles que a anunciam e a explicam. Interceda por todos os irmãos que o texto possa ter evocado em você, com suas virtudes e suas quedas. Busque unir o alimento da Palavra com o alimento Eucarístico. Preserve o que você viu, ouviu e saboreou na leitura orante. Guarde no coração e lembre-se: depois, vá ao encontro das pessoas, e com humildade, ofereça a elas a paz e a bênção que você recebeu. Deus precisa de você como um instrumento no mundo para anunciar a Palavra de Vida Eterna e realizar os novos céus e a nova terra.
DOM ADALBERTO DONADELLI JÚNIOR
Bispo Diocesano