No próximo dia 5 de março, Quarta-feira de Cinzas, daremos início à Quaresma, um evento universal para a Igreja Cristã. No Brasil, anualmente a CNBB aproveita o período para debater assuntos de interesse social e sensibilizar as pessoas através da Campanha da Fraternidade.
A cada ano um novo assunto é abordado em profundidade, promovendo conscientização e ações concretas. Porém, dada a sua importância, as questões ambientais sempre retornam ao debate e essa é a 9ª vez que vamos falar sobre elas. Dessa vez o tema é “Fraternidade e Ecologia Integral”, e o lema: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). O apelo é para louvar a Deus pela beleza da Criação, fazer um caminho decidido de conversão ecológica e vivenciar a Ecologia Integral, ouvindo o clamor dos pobres e da terra, criação de Deus.
E a Diocese de Rio do Sul buscou um dos maiores estudiosos e pesquisador do assunto no Brasil, na temática Igreja X Meio Ambiente, para falar sobre as questões da Ecologia Integral. Telmo Pedro Vieira é professor da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina e Animador Laudato Si. Ele possui Pós-doutorado em Sociologia da Religião; Doutorado e Mestrado em Antropologia Ibero-americana; Formação em Pedagogia e Especialização em Educação Socioambiental.
Em suas respostas, o Prof. Telmo acende um alerta para a gravidade da situação ambiental, que coloca o planeta às margens de um colapso e coloca em risco a continuidade da vida humana na terra.
O que motivou a escolha do tema deste ano?
O que motivou foi o agravamento da situação climática global. Segundo o cientista Carlos Nobre, “o que está diante de nós não é a extinção do planeta Terra, mas a possibilidade da extinção da vida humana no planeta”. Como define o secretário-geral das Nações Unidas, Antônio Guterres, “estamos vivendo na era da fervura global”. Então, essa é uma preocupação não só da igreja, mas do mundo, pois a situação vem se agravando de forma acelerada nas últimas décadas. O Papa já lançou dois documentos importantes sobre a situação do nosso Planeta (Laudato Sí' e Laudato Deum), demonstrando sua preocupação com a causa ambiental e chamando a atenção das autoridades que pouco fizeram. Assim, a escolha do tema é reflexo do compromisso da Igreja de cuidar da Obra da Criação, cuja situação é muito grave.
A Ecologia é a questão mais tratada pelas CFs desde o início de sua existência. Por que esse assunto sempre vem à tona?
Desde 1962, quando foi lançada a primeira CF, nós já tivemos oito Campanhas da Fraternidade focadas nas questões ambientais e algumas foram muito interessantes, como a de 2011, que, mesmo antes da COP21 e da Laudato Sí', já tratava da vida no planeta trazendo como lema “A Criação geme em dores de parto”. Isso mostra que a Igreja vem se preocupando há muito tempo com a questão. Tanto que, se olharmos a Doutrina Social da Igreja, em todo o seu percurso, vivenciamos momentos distintos de preocupação ecológica. Tivemos Ecologia Criacional, depois a Ecologia Ambiental, com o Papa João Paulo II, o Papa Bento XVI abordou a Ecologia Humana e, por fim, o Papa Francisco tratou da Ecologia Integral. Outra questão é que nesse ano comemoramos os 800 anos do Cântico das Criaturas, os 10 anos da Laudato Sí', o Jubileu da Esperança e ainda a COP30, que será realizada no Brasil. Logo, 2025 é um momento oportuno de se levar o anúncio da urgência de cuidarmos da Nossa Casa Comum, a partir de uma campanha que nasce da fraternidade, da caridade e da compaixão.
Estamos vivendo um tempo de crise socioambiental? Por quê?
O grande motivo são as mudanças climáticas provocadas pelo processo de desenvolvimento, de forma direta o uso dos combustíveis fósseis. Desde a primeira revolução industrial, em 1760, que marcou a transição de um sistema feudal para o sistema capitalista, o clima do planeta começou a alterar, por causa dos gases de efeito estufa. O nosso modelo econômico, o capitalismo, conduz as pessoas ao consumismo e as empresas a produzirem mais, porque o consumo é a base do capitalismo. Então, essa produção em excesso, que não respeita os limites da natureza, acaba enviando para a atmosfera uma quantidade muito grande de gases de efeito estufa. Esses gases estão provocando o que chamamos de Aquecimento Global. E o aquecimento global altera a vida no planeta, provocando eventos extremos, como os que estamos assistindo nos dias de hoje: excesso de chuva no sul do Brasil (situação do Rio Grande do Sul), chuvas torrenciais na Espanha e em Portugal, neve no deserto da Arábia Saudita, incêndios por todos os lados, secas no Brasil, África, perda da biodiversidade em todo Planeta. Essa é a gravidade da situação hoje e digo que a crise não é só social e nem só ambiental, mas socioambiental e global. É real e também é injusta, porque atinge os mais pobres. Quem mais sofre hoje com as mudanças climáticas são as periferias, as comunidades indígenas, os povos tradicionais, os povos ribeirinhos, as periferias das cidades, enfim, todos que estão à margem de um processo de inclusão. E aqui eu vou dar um exemplo: a África é a região do planeta que menos colabora na produção de gases de efeito estufa, mas é a região que sofre maior impacto com a fome e a sede.
Acredita que a CF pode contribuir para um processo de conversão integral nas pessoas e comunidades?
Acredito que só assim vamos superar a crise que estamos vivendo, porque a campanha nos propõe uma ação que é muito importante: a mudança de estilo de vida, um modo de viver sem acúmulo, sem excessos de consumo, sem descartáveis. Temos que passar a ter com a natureza uma relação de fraternidade e não uma relação de exploração. Entendendo que a natureza vive sem o homem, mas o homem não vive sem ela. A Campanha da Fraternidade é um período de mudança, de conversão. Queremos que o ser humano olhe para obra da Criação – a nossa Mãe Terra, da qual faz parte e perceba que tudo está interligado. Mais que isso, importante se dar conta de que antes de nascer qualquer tipo de ideologia, já existia Cristo, que é o conjunto de ideias mais fantástico que se tem e que provoca em nós uma mudança de postura e comportamento, e a Palavra de Deus – o Evangelho.
Como ouvir o grito dos pobres e da Terra, conforme sugere a CF25?
Eu digo que temos que silenciar o nosso egoísmo, o nosso individualismo e abrir os olhos para realizar o processo de conversão. A hora que nós silenciarmos o nosso egoísmo e deixarmos de pensar somente nos nossos desejos, no ter e no poder, e nos colocarmos no lugar do outro, sentir a dor do outro, estaremos aptos a ouvir o grito da Terra e dos Pobres. Não olhar o irmão que sofre com todas as injustiças socioambientais como estatística, como números, mas como um irmão que precisa da nossa compaixão, do nosso amor.
PROF. DR. TELMO PEDRO VIEIRA
Movimento Laudato Si