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Quaresma: tempo favorável para a conversão

No início desta Quaresma, neste Ano Jubilar Missionário, somos convidados a fazer um caminho quaresmal mais espiritual, que nos leve a uma profunda peregrinação interior, redescobrindo a beleza do nosso Batismo, renovando a opção de seguir Cristo no caminho da cruz e de participar na vitória pascal.

Para vivermos seriamente a ascese quaresmal, somos chamados a assumir três compromissos: a caridade, que encurta a distância entre irmãos e nos torna atentos às necessidades dos pobres e sofredores; a oração, que nos dá a graça de esculpir Cristo em nós, sobretudo nos espaços de silêncio e oração profunda; o jejum, que ordena os sentidos e ajuda a dar o valor certo às coisas.

O jejum: reduzir um pouco o que comemos, pois comemos muito, comemos mesmo não tendo necessidade, nos alimentamos e não olhamos para quem não tem o que comer; jogamos muita comida fora. O desperdício de alimento é pecado, quando muitos não têm o que comer. O alimento é dom de Deus, sagrado, direito de todos.

O jejum também tem a ver com o sentido da visão: olhar para nós mesmos, fixar a atenção naquilo que nos alimenta, ativar a prática de nos olhar com mais compaixão; talvez, afastar de nós aquele olhar que nos destrói por dentro, que nos causa danos, que bloqueia a expressão de nossa verdadeira identidade... Evitar o olhar de julgamento e desprezo.

Podemos fazer um outro jejum importante: o jejum dos eletrônicos. Usar menos televisão, computadores, celulares, videogames... Isso poderá nos ajudar, neste tempo, a viver uma Quaresma mais profunda. Os eletrônicos causam muito ruído e, muitas vezes, nos levam a pecar ou a nos distanciar da vida e dos irmãos. Os eletrônicos estão adoecendo as crianças e os jovens; o uso de maneira errada, sem controle e limites, está causando sérios danos psíquicos e espirituais. Os aparelhos nos atrapalham na escuta profunda e silenciosa da Palavra de Deus na oração.

A outra prática quaresmal proposta pela Igreja neste tempo é a esmola. Dar o que temos, não o que nos sobra; aqui significa compartilhar um olhar novo, que eleva o outro, promove o outro diante de suas necessidades básicas; perceber que o irmão é um tesouro precioso. Olhar para o outro com um olhar humanizador. Nas correrias da vida, nos acostumamos a não “ver” mais as pessoas e, de tanto ver só o que nos interessa, banalizamos o olhar, perdendo a capacidade de despertar interesse e compaixão pelos irmãos. É salvífico ativar o olhar mais expansivo e contemplativo, um olhar que nos faz sair de nós mesmos, conduzindo-nos à admiração e ao encantamento diante do dom maravilhoso da vida, em suas múltiplas expressões. Olhar que desperta a gratidão e o louvor. Um olhar que deixa transparecer, neste tempo propício, que a Vida é o dom maior que recebemos, e ela precisa ser cuidada com amor e ternura.

A oração, na sua essência, é intimidade e união do ser humano com Deus. Na tua oração, não use palavras sofisticadas, porque frequentemente o balbucio simples e repetitivo das crianças consegue enternecer o seu Pai, que está nos céus (cf. Mt 6,9). Não te preocupes com falar muito quando oras (cf. Mt 6,7), para que a tua mente não se distraia na busca de palavras. Uma só palavra do publicano bastou para alcançar-lhe a misericórdia de Deus (cf. Lc 18,13), e um só grito de fé salvou o ladrão (cf. Lc 23,42-43). O uso de muitas palavras na oração frequentemente dispersa a mente e a enche de imagens, enquanto a repetição de uma só fórmula habitualmente a recolhe. Moisés subia a montanha para rezar e descia iluminado: a oração nos transfigura.

A oração nos ajuda a recuperar o que acabamos perdendo no caminho por vivermos longe de Jesus. “Sem a oração, não se pode conservar a vida da alma; vive-se como se reza” (Santo Agostinho). A oração nos ajuda a desmascarar tudo aquilo que mascara a imagem de Deus em nós. A oração desvela o que está oculto em mim. Ninguém pode encontrar o caminho de Deus quando vive à margem de si próprio, quando não conhece a si mesmo. “Se quiseres chegar ao conhecimento de Deus, procura antes conhecer-te a ti mesmo” (Evágrio Pôntico).

A Quaresma é um tempo para nos deixar olhar por Deus. Deixemo-nos ser guiados por este Deus misericordioso e bondoso, pois é agora o tempo favorável, é agora o dia da salvação. Abençoado e frutuoso tempo quaresmal a todos!

 

DOM ADALBERTO DONADELLI JÚNIOR

Bispo Diocesano

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